sábado, 4 de abril de 2026

Jesse Madigan - Time Falls


In front of the ocean
You were holding on his hands
Mountains of hands
And it took you so high

Wherever you were going
Once again
You could see the sky
You can see the sky

Time falls
And you can see
You can see the sky

A canção "Time Falls", de Jesse Madigan, é a 10ª canção do renomeado álbum Soft Room for Movement (2022). É uma meditação sonora sobre a transitoriedade da vida e a forma como nos situamos perante a imensidão do mundo. Através de uma sonoridade minimalista e carregada de reverberação, a letra evoca imagens de elementos naturais grandiosos, como o oceano e as montanhas, que servem de pano de fundo para uma memória de ligação humana. Ao mencionar o ato de segurar as mãos de alguém, Madigan sugere uma tentativa de ancoragem num momento que, inevitavelmente, se dissolve.

O conceito central de "o tempo cai" funciona como uma metáfora para a fluidez da existência; o tempo não é algo que controlamos, mas sim algo que nos atravessa e nos rodeia, tal como a água de uma cascata. Existe um sentimento de desapego e de clareza que surge à medida que a canção avança: a repetição da frase sobre "poder ver o céu" indica que, ao aceitarmos a passagem do tempo e a perda do que é efémero, ganhamos uma nova perspetiva, mais ampla e pacífica. No fundo, a canção é um convite à contemplação e à aceitação da nostalgia, transformando a melancolia de um momento que passou numa sensação de liberdade e de quietude espiritual.

Paraísos fiscais globais "alimentam a desigualdade" enquanto os países ricos bloqueiam reformas da ONU

Uma década depois do Panama Papers, os 0,1% mais ricos da Terra escondem mais de 2,8 biliões de dólares em contas offshore para evitar o pagamento de impostos, concluiu um relatório da Oxfam International. Só esse dinheiro representa mais riqueza do que a detida por toda a metade mais pobre da humanidade, ou seja, mais de 4,1 mil milhões de pessoas.

Ilhas Caimão

De acordo com o relatório publicado na terça-feira, a economia global continua a perder centenas de milhares de milhões de dólares todos os anos devido ao abuso fiscal transfronteiriço — uma perda de receitas que os especialistas afirmam estar a alimentar a desigualdade extrema e a privar os governos de recursos necessários para combater a crise climática e financiar serviços públicos.

Em conjunto com o relatório The State of Tax Justice 2024, publicado pela Tax Justice Network (TJN), estima que os países perderão 4,8 biliões de dólares em receitas fiscais nos próximos dez anos se as tendências atuais se mantiverem.

"O abuso fiscal global não é um desastre natural, mas uma escolha política", afirmou Liz Nelson, diretora da TJN. "Os governos têm o poder de acabar com esta injustiça, mas os países ricos continuam a proteger os interesses dos abusadores fiscais em vez dos seus próprios cidadãos."

O relatório destaca que os países membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) — frequentemente descrita como o "clube dos países ricos" — são responsáveis pela maior parte das perdas fiscais mundiais. Segundo a análise, os países da OCDE e as suas dependências facilitam a maioria do abuso fiscal corporativo global, enquanto os países de baixo rendimento continuam a ser os mais afetados proporcionalmente.

Durante décadas, a OCDE liderou as negociações sobre as regras fiscais globais. No entanto, o relatório da TJN argumenta que estas regras foram concebidas para beneficiar as multinacionais e os países ricos, deixando o resto do mundo de fora.

O relatório surge num momento em que cresce o impulso para a criação de uma Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Cooperação Fiscal Internacional. No ano passado, os países votaram esmagadoramente a favor de levar as negociações fiscais para a ONU, desafiando a oposição de grandes economias como os EUA e o Reino Unido.

"A transferência da liderança das regras fiscais da OCDE para a ONU é o passo mais importante que podemos dar para acabar com a era dos paraísos fiscais", disse Alex Cobham, diretor executivo da Tax Justice Network.

A Common Dreams reportou que a erosão da base tributária obriga os governos a depender de impostos sobre o consumo, que prejudicam desproporcionalmente os pobres, enquanto as multinacionais ganham uma vantagem competitiva injusta sobre os negócios locais. O relatório conclui com um apelo urgente para que os países apoiem o processo da ONU para garantir que os impostos sejam pagos onde a atividade económica real ocorre.

Miranda Sarmento quer taxar lucros extraordinários das empresas


Numa carta conjunta enviada este sábado à Comissão Europeia, o ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, defende a aplicação de uma taxa sobre os lucros extraordinários que as empresas de energia estão a ter com o conflito no Médio Oriente, também conhecidos como “lucros caídos do céu” (windfall profits).

De acordo com a Reuters, a carta é assinada pelos ministros das Finanças de Portugal, Itália, Espanha e Áustria e defende que “dadas as atuais distorções de mercado e restrições fiscais, a Comissão Europeia deve desenvolver rapidamente um instrumento de contribuição semelhante para toda a União Europeia, com uma base jurídica sólida.”

A guerra no Médio Oriente tem provocado um aumento significativo dos preços do petróleo e do gás e o grupo de responsáveis pela pasta das Finanças nos seus respetivos países considera que uma taxa “enviaria uma mensagem clara de que aqueles que lucram com as consequências da guerra devem fazer a sua parte para aliviar o fardo sobre o público em geral”.

A carta dirigida ao comissário europeu para o Clima, Wopke Hoekstra, não traz mais detalhes sobre a taxa que consideram ter de ser aplicada. Em setembro de 2022, para responder à crise energética que se seguiu à invasão da Ucrânia pela Rússia, a União Europeia chegou a acordo sobre um novo pacote de emergência que incluiu um imposto de 33% sobre os lucros excessivos das empresas de energia, uma contribuição que os líderes europeus queriam usar para financiar medidas para as famílias mais vulneráveis atingidas pela crise.

O regulamento europeu cingia-se, na altura, ao setor energético, mas o Governo português, então liderado pelo socialista António Costa, acabou por estender a contribuição temporária também à grande distribuição alimentar. Costa referiu-se a esta medida como um “esforço de solidariedade adicional”, fazendo c0m que os “eventuais lucros excedentários possam ser canalizados para apoiar a população mais desfavorecida”.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

U2 - Easter Parade


A canção apresentada no vídeo é uma versão de "Easter Parade", um tema original da banda escocesa The Blue Nile, interpretado aqui pelos U2. No que toca ao estilo musical, esta peça afasta-se do rock de estádio mais convencional da banda irlandesa para mergulhar no Sophisti-pop e no Art Pop.

Trata-se de uma composição minimalista e atmosférica, onde impera uma sonoridade polida e elegante, muito característica da produção de finais dos anos 80 e início dos 90. A faixa assenta numa estrutura de Ambient Pop, privilegiando texturas suaves de piano e sintetizadores que criam uma envolvência etérea e quase hipnótica.

Do ponto de vista interpretativo, a música funciona como uma balada contemplativa. A voz de Bono assume um tom mais contido e vulnerável, focando-se na carga emocional e espiritual da letra. A presença de elementos litúrgicos, como a repetição da expressão grega "Kyrie Eleison" (Senhor, tende piedade) na secção final, reforça o carácter solene e devocional da obra, transformando-a numa espécie de hino moderno de cariz espiritual.

Havia mais presos políticos depois do 25 de Abril do que antes?


Durante a cerimónia dos 50 anos da Constituição, no Parlamento, André Ventura disse que houve mais cidadãos presos no pós-25 de Abril do que antes da Revolução. A frase gerou reação, com os constituintes convidados para a sessão a levantarem-se em protesto, abandonando a sala. Os dados batem certo? A SIC Verifica.

O discurso do líder do Chega agitou as bancadas e gerou reações e indignação. Alguns dos deputados constituintes presentes na sessão solene desta quinta-feira, comemorativa do 50.º aniversário da Constituição - entre os quais Helena Roseta e Jerónimo de Sousa - abandonaram as galerias do Parlamento durante a intervenção do líder do Chega, regressando após o fim do seu discurso.

André Ventura disse que houve cidadãos que, "já com esta Constituição ou à beira desta Constituição, já após a revolução ou perto da revolução, [que] foram presos sem mandato, foram mortos em atentados das FP-25".

Pedindo desculpa pela "falta de cortesia", Ventura foi mais longe e perguntou "o que dirão as gerações futuras" quando souberem que "um Parlamento amnistiou um grupo terrorista de esquerda que tinha na sua lista mortes de bebés, seres humanos, casais, às mãos da extrema-esquerda".

Depois, a frase que espoletou o abandono da sala:
"Pouco tempo depois do 25 de Abril, havia mais presos políticos do que havia antes do 25 de Abril de 1974, essa é a verdade", garantiu.

Mas... será mesmo?
Num livro escrito por João Menino Vargas, antigo Capitão de Abril que morreu em 2025, dá-se conta de que o regime deposto pelo 25 de Abril tinha quase 4.400 prisioneiros políticos, 127 dos quais em Portugal continental e os restantes nas colónias, à data da Revolução. Com maior precisão, o site da Comissão Comemorativa 50 Anos do 25 de Abril, aponta 128 "oposicionistas" libertados das prisões de Caxias e Peniche, e 4.249 presos políticos nas colónias.

Além disso, a historiadora Irene Flunser Pimentel contabilizou mais de 12 mil presos políticos durante a ditadura, mas estima que, no total, possam ser mais de 30 mil os presos durante esse período.

O SIC Verifica falou com Irene Flunser Pimentel, que desmontou a narrativa:
"É uma ideia falsa, é uma narrativa da extrema-direita e de alguma direita e que, no fundo, é para se ignorar que vivemos em ditadura até ao dia 25 de Abril de 74".

"Eu estudei na Torre do Tombo, não vejo esses historiadores, alguns até são historiadores, mas políticos, deputados, nunca os vi na Torre do Tombo, a ver os arquivos da PIDE, e eu estive seis meses só para contabilizar os presos de 45 a 74. [Estamos a falar de] 12.800 e qualquer coisa", explica a historiadora, acrescentando que esta contabilização não conta com todos os estrangeiros presos ou imigrantes.

Mas, além destes quase 13 mil, Irene Pimentel lembra que em "1933, quando foi formada a primeira polícia política desta ditadura, porque já havia anteriores - a PVDE - eram muitos mais".
"Estão contabilizados, em várias fases, 30 mil, 40 mil [presos políticos]", dá conta a historiadora.

E no pós-25 de Abril?
No dia em que se deu a Revolução, a polícia política portuguesa, PIDE/DGS, teria cerca de três mil agentes e 20 mil informadores que começaram a ser detidos nos dias e semanas a seguir à revolução e ao longo de mais de um ano em que viveram sem qualquer acusação formal.

Em julho, num comunicado, os SCE da PIDE/LP informavam que se encontravam presos mil ex-agentes da PIDE-DGS. Mais tarde, em dezembro de 1976, havia registo de 118 presos por envolvimento no 25 de Novembro, estes seriam libertados no mesmo ano.

Irene Flunser Pimentel explica aqueles que foram detidos nos dias que se seguiram ao 25 de Abril foram elementos da PIDE.
"Os únicos mortos do 25 de Abril foram quatro portugueses que foram fuzilados pela PIDE/DGS na rua António Maria Cardoso às 8 horas de dia 25 de Abril. Portanto, são os únicos mortos. E 45 feridos. A partir daí era impossível, porque não estava no programa prender os elementos da PIDE, mas eles praticaram crimes até ao fim. E, portanto, começaram a ser presos aqueles que estavam na rua António Maria Cardoso a tentar defender aquela sede e, depois, ao longo dos meses, muitos informadores e outros elementos da PIDE, aqueles todos que não fugiram. Portanto, estes são os presos políticos [do pós-25 de Abril]", afirma a historiadora.

Até 1986 foram pronunciadas 2.755 sentenças aplicadas a elementos da PIDE/DGS. O número distancia-se dos quase 4.400 prisioneiros políticos de 74 e dos mais de 30 mil durante todo o período em que o país viveu em ditadura.

Destes, "uns estiveram [presos] seis meses, outros estiveram um pouco mais, os maiores torturadores ficaram mais tempo", mas "não houve julgamentos destas pessoas" porque só com a Constituição se criou o aparelho judicial e este estipulava que "nunca mais iria haver julgamentos políticos".

André Ventura provocou indignação ao afirmar que havia mais presos políticos após o 25 de Abril do que durante a ditadura. No entanto, a narrativa é falsa, como confirma a historiadora Irene Pimentel. A ditadura teve cerca de 30 mil presos políticos e em 1974 foram identificados perto de 4.400 presos políticos em Portugal e nas colónias. No pós-Revolução foram detidos principalmente ex-agentes da PIDE, num número significativamente inferior.

Clara Mattei: capitalism is not natural - it’s enforced


Nascida em 1988, Clara Mattei é mestre em Filosofia e doutorada em Economia. Foi membro da School of Social Sciences no Institute for Advanced Studies de Princeton entre 2018 e 2019. Autora de artigos premiados pela History of Economics Society e pela European Society for History of Economic Thought, publica também artigos não académicos em publicações como The Guardian, Jacobin, The Nation e Il Fatto Quotidiano. Atualmente é professora auxiliar do Departamento de Economia da New School for Social Research em Nova Iorque.
É mentora do projecto FREE - Forum for  Real Economic Emancipation

Site: Clara Mattei

Pensamento de Clara Mattei
Clara Mattei defende uma visão provocadora e profundamente crítica sobre a relação entre o capitalismo e a geopolítica, argumentando que a economia não é uma ciência neutra, mas sim uma ferramenta de poder. No centro do seu pensamento está o conceito de austeridade, que ela não define como uma resposta técnica a crises de dívida, mas como um projeto político deliberado para salvaguardar a ordem capitalista. Segundo a economista, sempre que o sistema se sente ameaçado por movimentos sociais ou exigências democráticas que reivindicam uma maior partilha da riqueza, as elites políticas e financeiras accionam mecanismos de austeridade - como o corte em serviços públicos, a precarização do trabalho e o aumento das taxas de juro - para disciplinar a classe trabalhadora e reafirmar a primazia do capital sobre a vida humana.

No plano da geopolítica, Mattei observa que esta lógica de austeridade é exportada e imposta globalmente através de instituições tecnocráticas que operam fora do controlo democrático. Ela analisa como o sistema internacional está desenhado para isolar as decisões económicas da vontade popular, criando uma espécie de "blindagem" que impede os Estados de adoptarem políticas alternativas. Para a autora, a geopolítica contemporânea é marcada por uma competição constante entre nações para atrair investimento, o que resulta numa pressão descendente sobre os direitos sociais e salários, transformando governos em gestores de um mercado global em vez de representantes dos seus cidadãos. Mattei vai ainda mais longe ao traçar paralelos históricos, demonstrando como, no pós-Primeira Guerra Mundial, economistas liberais e regimes autoritários colaboraram para impor a austeridade, revelando que o capitalismo, quando em crise, prefere muitas vezes a estabilidade de mercados "disciplinados" em detrimento da verdadeira democracia. Em suma, para Clara Mattei, a geopolítica do capital é uma estratégia de manutenção de classe que utiliza a escassez artificial e a insegurança económica como formas de controlo social permanente.

Mattei defende que o maior sucesso do capitalismo moderno é convencer as populações de que "não há alternativa" (o famoso TINA de Margaret Thatcher). Em termos geopolíticos, isso se traduz  num mundo onde os Estados competem para ver quem oferece o ambiente mais "amigável" ao mercado, resultando em uma "corrida para o fundo" em termos de direitos sociais e salários.


Baseando-se em material de arquivos recém-descoberto na Grã-Bretanha e em Itália, grande parte dele traduzido pela primeira vez, A Ordem do Capital faz um relato novo, lúcido e muito crítico, da promoção da austeridade - e do sistema económico moderno - enquanto alavanca do poder político contemporâneo.

Ao longo de mais de um século, os governos que enfrentavam crises financeiras recorreram a políticas económicas de austeridade - cortes nos salários, nas despesas fiscais e nos benefícios públicos - para garantirem a solvência. Ainda que estas políticas tenham sido bem-sucedidas no apaziguamento dos interesses estrangeiros, tiveram impactes devastadores nas condições sociais e económicas de países de todo o mundo. Atualmente, embora a política da austeridade continue a ser favorecida pelos Estados em dificuldades, uma questão importante permanece sem resposta: e se a solvência nunca foi o verdadeiro objetivo da austeridade?

Em A Ordem do Capital, a economista política Clara E. Mattei investiga as origens intelectuais da austeridade e revela as razões da sua existência: a proteção do capital - e, na realidade, do capitalismo - em épocas de agitação social.

«Uma história fascinante da ascensão das políticas de austeridade no mundo do pós-Primeira Guerra Mundial e do modo como facilitaram o caminho para o fascismo – juntamente com muitas das políticas económicas atuais. Uma leitura obrigatória, com lições cruciais para o futuro. História da economia política no seu melhor.»
Thomas Piketty, economista, autor de O Capital no Século XXI

«Este livro de Clara Mattei é um contributo importante para a construção de uma nova narrativa económica. Num momento em que a inflação está em alta e os governos se inclinam para, uma vez mais, pedirem aos cidadãos “que apertem o cinto” este livro é mais relevante do que nunca.»
Mariana Mazzucato, economista, autora de O Valor de Tudo

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Laibach - Musick (feat. Wiyaala)


Musick
(feat. Wiyaala)

(Intro: Wiyaala)
Aha, yeah!
We’re gonna play some musick!

(Verso 1: Wiyaala)
You wake up and it’s there
In the water, in the air
Streaming through your very veins
Dulling all your daily pains
It’s a virus, it’s a cure
It’s the only thing that’s pure
From the cradle to the grave
Everyone is just a slave

(Refrão: Wiyaala & Milan Fras)
Musick!
It’s the rhythm of the heart
Musick!
Tearing everything apart
Musick!
The obsession, the disease
Musick!
Get down on your knees!

(Verso 2: Milan Fras)
Logic is a failing sound
Silence nowhere to be found
Synthesized and digitized
The human soul is advertised
Feed the rhythm, feed the greed
Everything is what you need
The algorithm knows your name
In the hall of sonic shame

(Ponte: Wiyaala)
(Canto em Sissala/Waala)
We dance to the beat of the machine
The loudest sound you’ve ever seen
Can you feel it?
Can you hear it?
It’s taking over your spirit!

(Outro)
Musick...
Musick...
The beat goes on and on and on...
Aha!

A canção "Musick", uma colaboração entre o coletivo esloveno Laibach e a artista ganesa Wiyaala, apresenta-se como uma fusão audaciosa de Eurodance, Industrial e Afropop. Lançada num contexto de exploração da cultura pop globalizada, a faixa marca uma viragem sonora para o grupo, que adota uma estética eletrónica mais vibrante e rítmica, embora mantenha a sua assinatura ideológica sombria e provocadora. Musicalmente, o tema assenta em batidas mecânicas e sintetizadores acelerados, típicos das pistas de dança europeias, que contrastam de forma fascinante com a energia orgânica, os ritmos tribais e o alcance vocal potente de Wiyaala.

No que toca ao significado, a obra funciona como uma crítica mordaz à omnipresença da música na era digital e ao domínio dos algoritmos. O Laibach utiliza a letra para descrever a música não como uma forma de arte sublime, mas como uma patologia, um vício ou um vírus que infeta a sociedade contemporânea. Não temos mais silêncio; a música nos persegue no supermercado, nos fones de ouvido e nas redes sociais. Através do contraste entre a voz profunda e autoritária de Milan Fras e o entusiasmo visceral de Wiyaala, a canção sugere que o ser humano se tornou um "escravo do ritmo", onde a música é utilizada pela indústria para preencher o silêncio e comercializar a alma humana. Em suma, acanção aponta que a música se tornou um produto de consumo rápido ("The human soul is advertised"), perdendo seu caráter sagrado para se tornar uma "doença" da qual não queremos ser curados.

Jason Hickel: “Os ricos estão a conduzir-nos para a destruição e não se importam”


Learn more about Jason Hickel and his work.
Check out Global Inequality to view Jason’s recent project (created in collaboration with a team of fellow researchers) which visualizes data and research on global inequality.

O Colapso Anunciado e a Ilusão do Crescimento
Na sua intervenção, Jason Hickel apresenta uma crítica mordaz à estrutura do capitalismo contemporâneo. O argumento central é que vivemos num sistema que exige o crescimento infinito do PIB para manter a estabilidade social e financeira. No entanto, Hickel recorda que vivemos num planeta com limites biofísicos finitos. Para o antropólogo, a ideia de que podemos continuar a crescer economicamente enquanto "desligamos" esse crescimento do impacto ambiental — o chamado "Crescimento Verde" — não passa de uma fantasia perigosa.

A Responsabilidade da Classe Alta
O título da entrevista, que refere que "os ricos não se importam", prende-se com a análise da pegada ecológica das elites. Hickel argumenta que a classe ultra-rica e as grandes corporações são os principais motores da destruição, não apenas pelo seu consumo ostensivo (como jatos privados), mas sobretudo pelo controlo que exercem sobre os investimentos e a política. Ele defende que este grupo continua a investir na expansão de combustíveis fósseis e na extração de recursos porque o lucro imediato sobrepõe-se à sobrevivência civilizacional a longo prazo.

O Decrescimento como Solução
A alternativa proposta por Hickel é o Decrescimento. Ao contrário do senso comum, ele esclarece que o decrescimento não é uma recessão (que é um colapso caótico de uma economia dependente de crescimento). O decrescimento é uma redução planeada do uso de energia e de recursos no Norte Global, com o objetivo de alinhar a economia com os limites do planeta e, simultaneamente, melhorar a vida das pessoas.

As medidas sugeridas passam por:
1. Abolir indústrias inúteis: reduzir setores que não contribuem para o bem-estar humano, como o marketing agressivo, o armamento ou a obsolescência programada.

2.Redistribuição radical: Tributar as grandes fortunas para financiar serviços públicos universais (saúde, educação, transportes).

3.Garantia de Emprego: assegurar que a transição para uma economia menor não gera desemprego, mas sim uma redução da carga horária de trabalho, permitindo mais tempo livre e partilha de tarefas.

A Urgência Política
Hickel conclui que a tecnologia, por si só, não nos salvará. Embora as energias renováveis sejam fundamentais, elas não conseguem substituir a escala atual de consumo material do Norte Global. A solução é, portanto, política e de classe: é necessário retirar o poder de decisão das mãos de uma elite que beneficia com a destruição e democratizar a economia para garantir a sobrevivência da biosfera.
Fonte

Energia em Portugal: porque o nuclear não é (ainda) a resposta


Portugal está numa encruzilhada estratégica na energia: ou hesita perante soluções caras, lentas e controversas, como o nuclear, ou consolida a vantagem competitiva que já tem nas renováveis, tornando o sistema mais robusto e previsível. Neste momento, insistir em discutir centrais nucleares em Portugal é, acima de tudo, uma distração política e financeira face às oportunidades reais que temos ao alcance.

A eletricidade portuguesa é hoje, em larga medida, de origem renovável, com um peso crescente da eólica e da solar e um contributo histórico da hídrica. Isto já nos permite ter períodos prolongados em que a quase totalidade da eletricidade consumida é gerada por fontes limpas, ainda que, numa perspetiva anual, continuemos dependentes de térmicas e de importações. O desafio não está em “inventar” uma nova fonte centralizada de produção, mas em gerir melhor a variabilidade das fontes que já temos – algo que se resolve com redes mais inteligentes, flexibilidade e armazenamento, não com um salto para o nuclear.

Defender o nuclear em Portugal, hoje, é ignorar três fatores decisivos. Primeiro, o custo: construir uma central nuclear exige investimentos gigantescos, prazos de execução muito longos e um compromisso de décadas, num país sem tradição nem cadeia industrial nesse domínio. Segundo, a rigidez: num sistema em rápida transformação, uma tecnologia pesada, centralizada e pouco flexível encaixa mal numa rede que caminha para a descentralização e para a gestão ativa da procura. Terceiro, a oportunidade perdida: cada euro canalizado para nuclear é um euro que não é investido em mais solar, mais eólica, mais eficiência, mais armazenamento e em reforço de rede, onde temos retorno mais rápido, impacto ambiental mais positivo e alinhamento direto com as metas europeias.

Há quem argumente que, se houver financiamento europeu, o nuclear passa a ser uma opção “a considerar”. Discordo. A existência de fundos não transforma uma má prioridade numa boa decisão. O verdadeiro debate deveria ser: se temos acesso a financiamento europeu e internacional, onde é que esse dinheiro gera mais segurança energética, mais redução de emissões e mais competitividade económica? Em Portugal, a resposta é clara: reforçar renováveis, investir a sério em armazenamento (baterias, bombagem hidroelétrica, hidrogénio verde onde fizer sentido), modernizar a rede e apostar em eficiência. É aí que cada euro conta mais.

A intermitência das renováveis não é um argumento contra elas; é um desafio de engenharia de sistema. Sabemos que o sol não brilha sempre e que o vento não sopra todos os dias, mas também sabemos que já existem tecnologias maduras para armazenar energia e gerir melhor a procura: centrais de bombagem, grandes baterias, soluções de autoconsumo com storage, contratos de flexibilidade com a indústria, redes digitais que antecipam e suavizam picos de consumo. Em vez de usar a intermitência como pretexto para reabrir o dossier nuclear, devíamos usá‑la como catalisador para acelerar a transição tecnológica do sistema elétrico.

A mobilidade elétrica é outro ponto crítico. Multiplicar postos de carregamento e veículos elétricos sem garantir que a energia que os alimenta é renovável e que a rede aguenta essa nova carga é um erro estratégico. Mas, novamente, a resposta está nas renováveis e na gestão da rede: mais produção descentralizada junto dos pontos de consumo, armazenamento local em hubs de carregamento, tarifários inteligentes que deslocam carregamentos para horas de maior produção solar ou eólica. Tudo isto é mais rápido, mais modular e mais adaptável à realidade portuguesa do que um projeto nuclear que, mesmo decidido hoje, só veria eletrões na rede daqui a 15 ou 20 anos.

Adiar o debate nuclear não é ser ingénuo nem ideológico; é ser pragmático.

Num país com recursos renováveis abundantes, escala limitada e finanças públicas pressionadas, faz pouco sentido apostar numa tecnologia cara, lenta, dependente de cadeias externas e que não resolve os desafios imediatos de integração de renováveis e de modernização da rede. O que faz sentido é concentrar esforços onde o retorno é mais rápido e mais certo: sol, vento, água, armazenamento e eficiência.

Portugal já está no grupo da frente da eletricidade limpa. A pior coisa que poderíamos fazer agora era dispersar-nos numa fuga para a frente nuclear que não se ajusta à nossa realidade. O caminho, pelo menos nesta década, é claro: consolidar e aprofundar a aposta nas renováveis, construir um sistema energético resiliente e flexível e usar o debate nuclear, quando muito, como exercício de prospetiva – não como desculpa para adiar decisões que podemos e devemos tomar já.

Armando Alves (1935-2026), um dos criadores do design moderno em Portugal


Armando Alves, um dos integrantes do famoso Grupo Os Quatro Vintes, a partir do qual se dedicou a renovar e a modernizar o design gráfico português, morreu esta terça-feira no Porto, cidade onde fez praticamente toda a sua carreira, deixando um notável legado como docente e praticante das artes gráficas. A notícia foi avançada por Miguel Carvalhais, director da Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto (FBAUP), instituição onde Armando Alves se formou e onde leccionou durante anos.

Nascido em Estremoz, em 1935, Armando José Ruivo Alves iniciou a sua formação artística na Escola de Artes Decorativas António Arroio e prosseguiu estudos de Pintura na Escola Superior de Belas Artes do Porto (ESBAP), onde concluiu o curso em 1962 com a classificação máxima de vinte valores.

Após a licenciatura, integrou o corpo docente da ESBAP como Professor Assistente, sendo pioneiro na introdução do ensino das Artes Gráficas. Em 1963, foi um dos fundadores da Cooperativa Árvore, estrutura fundamental na promoção das artes plásticas em Portugal.

Bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, viajou por vários países europeus nos anos 60, iniciando então a sua atividade expositiva individual. Em 1968, juntamente com Ângelo de Sousa, José Rodrigues e Jorge Pinheiro, fundou o grupo Os Quatro Vintes, que expôs em cidades como Porto, Lisboa e Paris até ao final da década de 1970.

A partir de 1973, dedicou-se integralmente às Artes Gráficas, área em que se afirmou como pioneiro e referência nacional. No seu atelier, situado na Rua Brito Capelo, desenvolveu uma vasta produção que incluiu direção gráfica de obras literárias, cartazes culturais e publicitários, bem como materiais para eventos diversos.

Armando Alves esteve também ligado ao Lugar do Desenho - Fundação Júlio Resende, desde a sua criação em 1993, participando em exposições internacionais entre 1997 e 1999, nomeadamente no Brasil, Chile, Cabo Verde e Moçambique.

Enquanto ilustrador, artista gráfico, desenhador e pintor - com uma evolução do neorrealismo para o abstracionismo - desempenhou ainda funções como consultor artístico e curador. A sua obra integra coleções de várias instituições, como a Câmara Municipal de Matosinhos e o Museu Nacional Soares dos Reis.

Ao longo da sua carreira, foi distinguido com diversos prémios e reconhecimentos, destacando-se a condecoração com o grau de Grande Oficial da Ordem do Mérito, atribuída pelo então Presidente da República Aníbal Cavaco Silva, nas comemorações do 10 de Junho de 2006, realizadas na Alfândega do Porto.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Escape with Romeo - Sound and the Fury


Melhor som aqui

A indústria europeia pretende colocar os europeus a financiar a baixa de preços dos medicamentos nos EUA


O presidente da divisão farmacêutica da Bayer avisa que os europeus terão de pagar preços mais elevados pelos medicamentos, sob pena de o continente deixar de ser um mercado atrativo para novos remédios.

“O governo americano deixou claro que não vê porque é que os EUA devem financiar sozinhos a investigação global em investigação e desenvolvimento (R&D)”, afirmou Stefan Oelrich, que também é membro da administração da multinacional, ao jornal Financial Times.

O argumento é que os medicamentos mais caros vendidos aos utentes nos EUA permitem financiar a investigação necessária à descoberta de novos fármacos, com os europeus a serem os grandes beneficiados. Mas a empresa alemã não é a única a avisar que este modelo tem de mudar: as declarações de Oelrich juntam-se a um coro de alertas recentes no mesmo sentido, por parte de empresas como a Pfizer e a Novartis.

O problema não está só na União Europeia. Segundo o Financial Times, a farmacêutica Eli Lilly também já avisou que os seus investimentos no Reino Unido estão dependentes de o NHS — o serviço nacional de saúde britânico — aumentar o preço que paga pelos medicamentos. Um apelo que surge num momento de especial aperto financeiro dos principais sistemas de saúde europeus.

A divisão farmacêutica da Bayer, segundo o FT, equivale a 40% das receitas do grupo. Mas tem várias patentes em vias de expirar e tem planos para expandir o negócio no mercado norte-americano, que espera vir a ser o seu principal. Ao jornal financeiro, o responsável garantiu, contudo, que tem um pipeline robusto de novos produtos farmacêuticos que deverão suportar as receitas mais perto do final desta década.

Lavagem verde
"Em Portugal, a Responsabilidade Social Bayer rege-se por cinco grandes linhas orientadoras: ações com a Comunidade, promoção da Educação e Ciência, e Proteção do Ambiente, promoção de Estilo de Vida Saudável." [Fonte]

Gigantes globais da carne são forçados a reduzir as alegações enganosas sobre o clima



No final de 2025, um acordo judicial histórico nos EUA colocou a gigante da carne Tyson Foods e as suas alegações climáticas exageradas sob um escrutínio sem precedentes.

O processo, interposto pelo Environmental Working Group (EWG) , representado pelo Animal Legal Defense Fund , Earthjustice, Edelson PC e FarmSTAND, questionou a promessa da Tyson de atingir emissões líquidas zero de gases com efeito de estufa até 2050 e o seu marketing de "carne de bovino climaticamente inteligente", incluindo a linha Brazen Beef, agora descontinuada, anunciada como "a primeira carne de bovino amiga do clima com uma redução de 10% nas emissões de gases com efeito de estufa". O cientista ambiental Matthew Hayek, da Universidade de Nova Iorque, questionou a credibilidade científica de alegações tão precisas sobre as emissões e se os consumidores poderiam realmente ter a certeza de que os seus bifes teriam emissões mais baixas em comparação com os produtos de carne de bovino convencionais. Como parte do acordo, a Tyson concordou em deixar de descrever a sua carne de bovino como "emissões líquidas zero" ou "climaticamente inteligente" durante cinco anos, a menos que estas alegações sejam comprovadas por provas verificadas por especialistas, embora a empresa ainda insista que a decisão "não representa qualquer admissão de culpa".

Os dados destacados pelo EWG pintam um quadro negro das prioridades dentro da corporação: segundo o relatório, a Tyson gasta menos de 0,1% da sua receita anual em esforços de redução de emissões, principalmente em investigação, o que equivale a cerca de 50 milhões de dólares de um total aproximado de 53 mil milhões de dólares, enquanto gasta cerca de três vezes mais em publicidade . Durante este período, o EWG estima que as emissões de gases com efeito de estufa da Tyson superam as de países inteiros como a Áustria ou a Grécia, sendo que a produção de carne de bovino é, por si só, responsável por 85% da sua pegada de carbono.

O setor da criação de animais em geral continua a ser um dos maiores poluidores climáticos, com uma estimativa de 12% a 19% de todos os gases com efeito de estufa causados ​​pela atividade humana ligados aos animais explorados para alimentação, sendo a carne de bovino apontada como particularmente prejudicial. Outras corporações têm-se apoiado na marca “carbono neutro”, frequentemente sustentada por compensações em vez de cortes profundos na produção, enquanto a JBS, outro gigante global da carne, foi recentemente pressionada pelo procurador-geral do estado de Nova Iorque a baixar a sua mensagem de “Emissões Líquidas Zero até 2040” para uma mera “meta” ou “ambição” e a investir 1,1 milhões de dólares em programas de agricultura climática inteligente. Matthew Hayek, da Universidade de Nova Iorque, que há muito critica as chamadas narrativas sobre carne amiga do clima, acolheu bem o escrutínio, dizendo à Corporate Knights : "10% parece uma redução de emissões tão pequena que está bem dentro da margem de erro.
Duvido que alguém tenha informações que possam 'provar' que, quando um consumidor vai ao supermercado, está realmente a consumir menos 10% de emissões do que o bife que está ao lado." 

Der Blaue Reiter - Words of Silence


O nome do grupo "O Cavaleiro Azul" é uma homenagem direta ao movimento expressionista alemão liderado por Wassily Kandinsky, procurando, tal como os pintores da época, traduzir verdades espirituais através de uma arte emocional e simbólica.
Esta faixa consta do álbum Le Paradise Funèbre: L'Envers du Miroir (2006)
As imagens deste vídeo pertencem a uma das obras mais aclamadas do cinema europeu: o filme "Paisagem no Nevoeiro" (Topio stin omichli), de 1988 do realizador: Theodoros Angelopoulos (um dos mestres do cinema grego).
Sinopse: o filme acompanha dois irmãos - uma rapariga de 12 anos chamada Voula e o seu irmão mais novo, Alexandre - que fogem de casa para tentar encontrar o pai, que eles acreditam viver na Alemanha. A viagem leva-os através de uma Grécia desolada, industrial e envolta em nevoeiro.
Estilo: é um filme profundamente poético, melancólico e visualmente deslumbrante, caraterístico do estilo de Angelopoulos, com planos longos e uma forte carga simbólica.

Miranda Sex Garden - Peep Show


Videoclipe original com melhor som aqui

Letra
Show me a memory
And that's where I'll long to be
Please don't ask for more from me
Cos memory is all I'll be

[Refrão]
But I can live
In your mind's eye
Live, in your heart
I'll love you in your dreams
But please don't try to hold me in your arms

Show me a fantasy
And that's who I'll long to be
Please don't ask for more from me
Cos fantasy is all I'll be

[Refrão] 2X

O álbum Fairytales of Slavery, lançado em 1994, representa o momento de maior rutura e maturidade artística do Miranda Sex Garden, consolidando a transição da banda de um trio vocal de música antiga para um coletivo de rock gótico experimental e darkwave. Neste disco, a sofisticação das harmonias clássicas funde-se com uma sonoridade industrial densa, marcada por guitarras distorcidas, ritmos tribais e uma atmosfera assumidamente claustrofóbica e sensual. É uma obra que abandona a pureza acústica do passado em favor de um estilo de vanguarda, frequentemente comparado à sonoridade de artistas como Dead Can Dance ou à agressividade artística do movimento pós-punk. 

O Fairytales of Slavery é amplamente considerado o disco mais negro, pesado e experimental da banda. Foi produzido por Alexander Hacke (dos Einstürzende Neubauten), o que explica a guinada drástica para o Rock Industrial e para uma sonoridade muito mais metálica e abrasiva oi produzido por Alexander Hacke (dos Einstürzende Neubauten)

A canção que dá título ao álbum funciona como uma metáfora central sobre o voyerismo e a exposição. Através de uma sonoridade que oscila entre o sussurro sedutor e a tensão caótica, a letra explora o desconforto de ser observado e o jogo de poder inerente ao ato de olhar. O termo "Peep Show" sugere um ambiente de cabaré decadente e sombrio, onde a feminilidade não é apresentada de forma passiva ou delicada, mas sim como uma força crua e, por vezes, perturbadora. Ao subverterem a imagem de "anjos" que as acompanhava desde o início da carreira, as integrantes utilizam esta faixa para explorar os desejos, os medos e a complexidade da psique humana, criando uma ponte entre a beleza técnica do conservatório e a rebeldia do submundo industrial de Londres.

O nome Miranda Sex Garden nasceu de uma vontade deliberada das fundadoras — Kelly McCusker, Jocelyn West e Katharine Blake — em unir o erudito ao profano, criando um contraste que definisse a identidade da banda. A primeira parte do nome, Miranda, é uma referência direta à heroína da peça A Tempestade, de William Shakespeare, simbolizando a pureza, a juventude e a herança clássica que as integrantes traziam da sua formação académica em música antiga.

Por outro lado, a adição de Sex Garden serviu como um contraponto irónico e provocador. Sendo jovens estudantes de conservatório que interpretavam madrigais do século XVI, o grupo queria distanciar-se da imagem austera e conservadora associada aos coros tradicionais. Ao introduzirem esta expressão mais carnal e terrena, as artistas estabeleceram uma dualidade entre o "celestial" das suas harmonias vocais e a atitude rebelde da cena underground londrina dos anos 90.

Esta escolha acabou por se revelar uma excelente estratégia de identidade artística, permitindo à banda transitar com naturalidade entre a solenidade da música renascentista e a estética sombria do rock gótico e industrial, sublinhando que a sua arte não estava presa ao passado, mas sim viva e em constante mutação.