terça-feira, 25 de agosto de 2026

Yalisco - Long Summer

Letra
It's been a long long summer
Thinking about you
And though I said I'd get through it
It still sounds a bit untrue
Girl, sometimes I wonder
If you feel as I do
Cause when the sun is going down
I just want to be around you

It's been a long long time
Alone with my thoughts
Trying to find anybody
To help me pass the time
Girl, sometimes I wonder
If you still dream about me
And when the tide is going out
You just want me by your side

It's been a long long summer
Think I've made up my mind
Now I must fill the emptiness
And try to start again
Girl, I do still wonder
If you feel as I do
Cause when the sun is going down
I still want to be around you

Anatomia da Melancolia Solar: A Poética Suíça de "Long Summer" dos Yalisco

Originais de Genebra, na Suíça, os Yalisco — projeto cofundado pelo vocalista e guitarrista Valentin Girardet — destacam-se no panorama do indie rock e surf pop alternativo europeu. A sonoridade de "Long Summer" enquadra-se num dream pop e surf rock atmosférico marcado por guitarras carregadas de reverb, ritmos cadenciados e timbres quentes. A produção da faixa, editada pela chancela independente Table Basse Records, constrói uma paisagem sonora envolvente e contemplativa que evoca a sensação estival e a languidez típica do final de tarde.

No que concerne ao significado da canção, a letra escrita por Valentin Girardet e pelos seus companheiros de banda aborda a transição emocional do isolamento após o fim de uma relação. O "longo verão" funciona como uma metáfora para um estado de suspensão temporal - um período dilatado em que a luz vibrante da estação contrasta fortemente com a solidão e a ruminação interior ("It's been a long long summer / Thinking about you"). A composição retrata o esforço para preencher o vazio e recomeçar, enquanto a maré e o pôr do sol sublinham a inevitabilidade da passagem do tempo.

Do ponto de vista literário e filosófico, a faixa estabelece um diálogo com o conceito de spleen baudelairiano e com a melancolia existencial, na qual a beleza da natureza coexiste com o tédio e a nostalgia interior. Releva também uma profunda ressonância com a reflexão de Albert Camus sobre encontrar um "verão invencível" no meio das adversidades do indivíduo, bem como com a noção de tempo psicológico ou durée de Henri Bergson: a perceção emocional da estação estende-se indefinidamente na psique de quem recorda. Em termos poéticos, a faixa revisita o efémero da juventude e do afeto, transformando o cenário solar num espaço metafísico de cura, saudade e aceitação.

Página oficial

A reação do continente: enquanto a Europa trava o turismo especulativo, Portugal fica para trás e entra em autodestruição?

Manifestação "Barcelona no esta en venda" (29/01/2017)
Várias cidades europeias estão a responder à crise da habitação e ao turismo de massa através de intervenções diretas na propriedade, restrições ao alojamento local e estratégias de gestão de fluxos de visitantes, variando entre proibições drásticas, limites de utilização e forte investimento público em habitação. Barcelona anunciou a caducidade de todas as licenças de alojamento turístico em edifícios residenciais até novembro de 2028, com o objetivo de devolver cerca de 10.000 frações habitacionais ao mercado de arrendamento de longa duração. No mesmo sentido, Madrid aprovou o Plan RESIDE, que proíbe apartamentos turísticos individuais em prédios habitacionais no centro histórico, permitindo a atividade apenas a edifícios inteiros dedicados exclusivamente ao turismo.

Outras capitais optaram por impor limites temporais severos para travar a conversão de casas em hotéis informais. Amesterdão restringiu o arrendamento de habitações por particulares a um máximo de 30 dias por ano, reduzindo para 15 dias nas zonas de maior pressão urbana, além de ter congelado a abertura de novos hotéis e limitado o número total de pernoitas anuais na cidade. Paris estabeleceu um teto máximo de 90 dias por ano para o arrendamento da residência principal, associado a exigências estritas de eficiência energética, enquanto Viena aplica um limite idêntico de 90 dias e exige a autorização explícita de todos os condóminos do prédio para qualquer exploração turística.

Paralelamente, cidades históricas recorrem a ferramentas financeiras e regulatórias para combater a sobrelotação do espaço público. Veneza implementou uma taxa de entrada para visitantes de um dia durante as épocas de pico para conter o turismo de passagem sem consumo local, e Florença proibiu a instalação de cofres de chaves nas fachadas do centro histórico por razões de decoro urbano, travando em simultâneo a emissão de novas licenças.

Como alternativa à especulação pura do mercado livre, Viena e Berlim aplicam leis rigorosas contra o uso indevido de habitação para fins não residenciais, sendo que Viena destaca-se por manter mais de 60% da sua população a residir em habitação pública ou cooperativa subsidiada, um modelo que protege o parque habitacional da pressão turística. Em termos comunitários, o novo quadro regulatório europeu obriga as plataformas digitais a partilharem dados mensais com os municípios, simplificando a fiscalização direta do alojamento ilegal.

Na Grécia, na Croácia, na Irlanda e na Chéquia, a resposta ao turismo intensivo assenta igualmente na limitação do alojamento local e na introdução de restrições territoriais severas. A Grécia aplicou um travão total à emissão de novas licenças nos três distritos mais centrais de Atenas e impôs restrições rigorosas à densidade de alojamentos e à construção em ilhas saturadas como Santorini e Mykonos. Para redirecionar o edificado para a população local, o governo grego criou uma isenção total do imposto sobre rendimentos de arrendamento durante três anos para os proprietários que convertam imóveis turísticos em habitação de longa duração.

Na Croácia, a cidade de Dubrovnik proibiu novas licenças de alojamento local no centro histórico e limitou a operação de navios de cruzeiro a um máximo simultâneo de dois barcos e 4.000 passageiros em doca. Além disso, a Lei do Turismo croata exige que a conversão de qualquer apartamento em alojamento turístico seja aprovada por pelo menos 80% dos condóminos do prédio.

A Irlanda focou a sua intervenção em Dublin e nas restantes áreas de elevada pressão habitacional (Rent Pressure Zones), onde passou a ser apenas permitido o arrendamento da residência própria principal. O arrendamento da habitação inteira está sujeito a um teto máximo de 90 dias por ano, sendo que ultrapassar este limite exige uma autorização de alteração de uso do solo (planning permission) que é sistematicamente recusada em áreas urbanas com escassez de casas.

Por fim, a Chéquia aprovou legislação que confere autonomia aos municípios, permitindo que cidades como Praga fixem limites máximos ao número de alojamentos locais por zona e imponham tetos anuais aos dias de exploração, sob a obrigação de registo prévio e identificação transparente dos imóveis em todas as plataformas digitais.

Em França, a resposta ao turismo de massa e à crise habitacional combina legislação nacional estrita, poderes reforçados para os municípios e medidas de justiça fiscal orientadas para travar a rentabilidade da especulação imobiliária. O enquadramento legal francês impõe um teto máximo de 120 dias por ano para o arrendamento da residência principal como alojamento turístico em cidades com mais de 200.000 habitantes ou em zonas de forte pressão habitacional (zones tendues). Para as residências secundárias, a lei exige uma licença especial de alteração de uso emitida pelas câmaras municipais. Em grandes centros como Paris, Bordéus e Nice, esta autorização está sujeita a um rigoroso sistema de compensação: o proprietário que pretenda transformar um imóvel habitacional em alojamento turístico é obrigado a adquirir um espaço comercial no mesmo bairro e convertê-lo em habitação de longa duração, frequentemente com o dobro da área original, o que inviabiliza financeiramente o negócio na maioria dos casos.

Para combater a desigualdade no tratamento do mercado, o parlamento francês aprovou a chamada "Lei Le Meur", que pôs fim às vantagens fiscais historicamente concedidas ao setor. Com esta reforma, o abatimento fiscal aplicado aos rendimentos de alojamentos turísticos não classificados caiu de 71% para 30%, igualando as regras do arrendamento tradicional de longa duração. Adicionalmente, esta legislação conferiu nova autonomia aos municípios, permitindo-lhes reduzir o limite máximo de arrendamento de residências principais de 120 para 90 dias por ano.

Ao nível local e regional, autarquias como a de Nice implementaram o registo obrigatório com código QR nos anúncios digitais, aplicaram quotas máximas de licenças por bairro no centro histórico e exigiram a aprovação expressa das assembleias de condóminos para o uso turístico de frações residenciais. Nas regiões de montanha, como a zona dos Alpes e Chamonix, foram criadas quotas territoriais que proíbem a conversão de novas construções em alojamento local, reservando o edificado para trabalhadores e residentes permanentes. Em paralelo, a regulamentação nacional proíbe progressivamente o arrendamento turístico de imóveis com fraco desempenho energético, forçando os proprietários a realizarem obras de reabilitação sob pena de exclusão do mercado.

O caso Solara4: Como a maior central solar sem subsídios acabou em insolvência e a pedir fundos públicos

Há empresas que entram em dificuldades porque lhes falta matéria-prima, outras porque perdem clientes e outras ainda porque os custos disparam. A Welink conseguiu uma variante mais sofisticada: entrou em apuros porque a electricidade que produz passou a valer pouco no mercado grossista, embora o consumidor português continue a pagar pela electricidade um preço suficientemente elevado para não suspeitar que, algures entre a central e a factura, ela chegou a ser quase oferecida. É uma das pequenas maravilhas do mercado eléctrico: o produtor lamenta que a energia esteja barata, o consumidor lamenta que esteja cara e, entre ambos, o sistema consegue preservar a infelicidade geral com uma eficiência que a produção de electricidade raramente alcança. 
A história começa em Alcoutim, onde a Solara4 entrou em funcionamento em 2021 com cerca de 221 MW de potência e mais de 650 mil painéis solares. A central foi apresentada como um exemplo particularmente feliz da maturidade das renováveis porque tinha sido construída sem subsídios públicos à produção. A própria Welink continuou a destacar essa característica durante anos e ainda em 2025 recordava que o projecto demonstrava a viabilidade da produção solar industrial em grande escala sem apoio governamental. Era uma história excelente: o investimento era privado, o mercado remunerava-o, o sol fazia a sua parte gratuitamente e o Estado podia finalmente afastar-se sem que ninguém desse pela falta dele. 
Cinco anos depois, a Welink Energy Portugal 2 (UK) Limited, sociedade que controla a central, entrou em administração judicial no Reino Unido. A explicação não passa por uma inesperada escassez de sol no Algarve, mas por uma combinação bastante mais terrena de produção abaixo do previsto, problemas técnicos, avarias, incêndios e preços grossistas inferiores aos que sustentavam as contas do projecto. 
A expansão da energia solar na Península Ibérica contribuiu para empurrar os preços para valores muito baixos em determinadas horas, chegando por vezes a zero ou mesmo a território negativo, fenómeno que tem uma curiosa particularidade: é apresentado como uma vitória para o sistema eléctrico até ao momento em que quem produz a electricidade começa a perder dinheiro com ela. O consumidor, entretanto, não foi incomodado por essa abundância de electricidade quase gratuita. A descida no mercado grossista não se transporta mecanicamente para a factura, onde continuam a viver redes, tarifas, impostos, contratos, margens e todas as restantes parcelas que fazem com que uma mercadoria possa valer zero durante algumas horas num mercado e continuar a custar dinheiro sério a quem acende o forno. 
Conseguimos, portanto, chegar a uma situação económica de rara elegância: a electricidade é simultaneamente demasiado barata para quem a vende e suficientemente cara para quem a compra. Não é fácil desagradar a duas pontas da mesma transacção, mas também não foi para coisas fáceis que se inventaram mercados energéticos europeus. No caso da Solara4, a dificuldade não ficou pelo preço. Os bancos Investec e Kommunalkredit terão cerca de 64 milhões de euros por recuperar, enquanto a China Triumph International Engineering Company, pertencente ao grupo estatal chinês CNBM e responsável pela construção da central, reclama aproximadamente 143 milhões num processo de arbitragem. Pelo meio houve incêndios, equipamentos avariados e períodos de indisponibilidade, tendo cerca de 10% da central estado fora de serviço em Maio, incluindo áreas afectadas por vegetação seca por limpar. 
Uma instalação de centenas de milhões de euros, financiada por bancos internacionais, construída por um gigante industrial chinês e equipada com tecnologia capaz de converter radiação solar em electricidade acabou por descobrir que há problemas que não exigem inteligência artificial, semicondutores ou engenharia avançada. Às vezes basta mato. 
A gestão da central foi entretanto retirada à Welink Investments e entregue à Exus, que, juntamente com a Enertis, deverá agora avaliar quanto é necessário investir para melhorar o desempenho do activo. Ao mesmo tempo, admite-se uma eventual venda. O próprio director da Welink para a Península Ibérica reconheceu que uma central exclusivamente solar já não seria, nas actuais condições, economicamente sustentável por si só, o que é uma conclusão particularmente interessante quando aplicada a uma central que foi apresentada durante anos como demonstração precisamente da sustentabilidade económica de uma grande instalação solar sem apoio público. 
A solução passa agora por transformar Alcoutim numa instalação híbrida, acrescentando mais produção solar, energia eólica e armazenamento. E é neste ponto que a história deixa de ser apenas mais uma insolvência empresarial e começa a adquirir algum interesse filosófico, porque o projecto que ajudou a demonstrar que as grandes centrais solares já não precisavam de subsídios descobriu entretanto que precisava de baterias, e as baterias descobriram que precisavam de 16.445.234,15 euros de financiamento público. O beneficiário chama-se Solara4 Phase4, S.A., tem sede em Alcoutim e obteve através do PRR apoio para um “Sistema de Armazenamento em Baterias na Central Fotovoltaica de Alcoutim com potência nominal 100MW”. Foram-lhe atribuídos cerca de 16,45 milhões de euros, dos quais 3,78 milhões já tinham sido pagos, correspondendo a aproximadamente 23% do montante aprovado. Não estamos sequer perante uma verba lateral de algumas centenas de milhares de euros encontrada num programa obscuro: a Solara4 Phase4 recebeu o maior apoio individual atribuído naquele concurso do Fundo Ambiental para armazenamento de energia. 
Convém distinguir as sociedades, não porque a distinção torne a história menos interessante, mas porque permite contá-la sem oferecer uma escapatória factual a quem prefira discutir o detalhe em vez do essencial. A Solara4 Phase4 não é juridicamente a mesma empresa britânica que entrou em administração judicial e os 16,45 milhões são fundos públicos europeus do PRR, geridos através das estruturas portuguesas, não uma transferência directa do Orçamento do Estado. Mas também não estamos perante duas empresas que, por uma dessas coincidências que animam a vida empresarial, resolveram chamar-se Solara4, instalar-se em Alcoutim e trabalhar na mesma central sem terem nada uma com a outra. A própria Welink apresenta a bateria de 100 MW como parte da expansão do projecto Solara4. A diferença societária existe. A separação económica é que exige mais imaginação. E é aqui que a história se torna particularmente reveladora. Durante anos, a ausência de subsídios foi utilizada como prova de que o investimento privado e o mercado já conseguiam sustentar grandes projectos solares sem recorrer ao contribuinte. 
Não era uma nota técnica escondida numa apresentação para investidores; fazia parte da narrativa pública do projecto. A Solara4 mostrava que as renováveis tinham chegado à idade adulta e deixado para trás a fase desagradável em que precisavam de tarifas garantidas, apoios e dinheiro público. Depois a produção solar aumentou, os preços grossistas caíram, a central produziu abaixo do esperado e aquilo que era economicamente sustentável deixou de o ser nos mesmos termos. A resposta passou por adicionar armazenamento e adaptar o projecto, operação para a qual surgiu, providencialmente, financiamento público. 
Não há necessidade de imaginar qualquer ilegalidade. O programa de apoio ao armazenamento existe, a empresa candidatou-se e recebeu o financiamento que lhe foi aprovado. O problema não é criminal, é muito mais banal e, por isso, bastante mais interessante: quando o projecto funcionava sem apoio público, esse facto servia para demonstrar a superioridade e autonomia do mercado; quando as condições de mercado deixaram de assegurar a rentabilidade desejada, o dinheiro público regressou, desta vez não sob o nome pouco elegante de subsídio, mas vestido de armazenamento, flexibilidade de rede, transição energética e resiliência. As palavras melhoraram consideravelmente. O dinheiro continua a ter de sair de algum lado. 
Há ainda uma ironia adicional. Um dos problemas da Solara4 resulta precisamente do sucesso da energia solar. Quanto mais capacidade fotovoltaica entra no sistema, maior é a produção nas mesmas horas e mais pressão existe sobre os preços grossistas, chegando ao ponto em que algumas centrais começam a destruir a rentabilidade umas das outras. 
Durante anos, o aumento da produção renovável foi apresentado como sinal de sucesso do mercado e da política energética. Quando esse sucesso começa a reduzir as receitas dos produtores, transforma-se subitamente num problema que exige armazenamento subsidiado. O mercado produziu o excesso, o excesso reduziu o preço e o financiamento público ajuda agora a pagar a tecnologia necessária para devolver valor económico à energia cujo preço o próprio mercado fez cair. 
A situação torna-se ainda mais curiosa porque nada disto significa que a afirmação original fosse falsa. A central de 2021 foi efectivamente construída sem subsídio à produção. O problema está em continuar a apresentar essa condição como prova suficiente da viabilidade estrutural do modelo quando, poucos anos depois, a sociedade que controla o activo está em insolvência, os bancos têm cerca de 64 milhões de euros por recuperar, o empreiteiro estatal chinês reclama 143 milhões, a gestão teve de ser entregue a terceiros, a venda está em cima da mesa e uma sociedade ligada à expansão do projecto recebeu autorização para beneficiar de mais de 16 milhões de euros de financiamento público. Talvez seja esta a contribuição mais interessante da Solara4 para o debate económico. 
Durante décadas discutiu-se se determinados sectores deviam ser públicos ou privados, se o Estado devia intervir ou afastar-se e se o mercado conseguia resolver sozinho os problemas de investimento e eficiência. 
A prática moderna conseguiu ultrapassar essa discussão com uma solução bastante mais confortável: quando o investimento corre bem, serve de demonstração de que o sector privado não precisa do Estado; quando corre mal, torna-se estratégico demais para prescindir dele.
O contribuinte europeu não fica com a central, não participa nos lucros que ela eventualmente volte a gerar e não entra para o conselho de administração. Fica apenas com uma parte da conta das baterias, o que talvez seja a forma contemporânea mais aperfeiçoada de parceria público-privada: o privado conserva a propriedade e o público participa na necessidade. A Solara4 começou, portanto, como uma demonstração de que o mercado já conseguia fazer energia solar sem subsídios e chegou a 2026 com a sociedade proprietária em insolvência e uma expansão apoiada por 16,45 milhões de euros de dinheiro público. Não prova que a energia solar não funciona, nem que o investimento privado seja inútil. 
Prova apenas uma coisa bastante mais antiga e menos tecnológica: há uma extraordinária quantidade de empresas que conseguem viver sem o Estado até ao exacto momento em que precisam dele. O sol, esse, continua gratuito. Foi a única parte do projecto que ainda não apresentou a factura.

A Lição de Alcoutim para o PSZAER
A relação entre o caso da central Solara4 e o Plano Setorial para as Zonas de Aceleração de Energias Renováveis é marcada por sérios alertas sobre a sustentabilidade do modelo de licenciamento rápido. Por um lado, se o plano for utilizado apenas para multiplicar a capacidade fotovoltaica sem acautelar a infraestrutura envolvente, o risco de fracasso financeiro aumenta substancialmente. Ao simplificar os processos burocráticos para instalar mais megawatts de energia solar pura nas mesmas horas de ponta, o sistema agrava a sobreoferta no mercado grossista. Esta abundância empurra os preços para zero ou para valores negativos durante os períodos de maior radiação solar, destruindo a rentabilidade económica dos próprios projetos que se pretendem incentivar e aumentando o risco para os bancos e fundos que os financiam. Além disso, o colapso financeiro da gestora de Alcoutim e a subsequente atribuição de milhões de euros em fundos públicos do PRR para a instalação de baterias minam a confiança política e social. Fica exposta a fragilidade da premissa de que as renováveis de grande escala conseguem operar com total autonomia em relação ao Estado, o que pode originar uma maior contestação pública e um escrutínio acrescido sobre as facilidades e isenções concedidas às zonas de aceleração.

Por outro lado, o episódio da Solara4 oferece uma oportunidade clara de redesenho para a execução deste enquadramento legal. O plano só evitará a proliferação de ativos insolventes se deixar de funcionar como um mero acelerador de licenças para painéis e passar a exigir requisitos de maturidade técnica e económica mais elevados. Para que as zonas de aceleração cumpram o seu propósito sem sobrecarregar o sistema financeiro ou os contribuintes, o licenciamento célere deve ser condicionado à integração obrigatória de hibridização, combinando a fonte solar com a eólica, e à incorporação de sistemas de armazenamento em baterias (BESS). Desta forma, garante-se que a energia produzida pode ser guardada e injetada na rede nos momentos em que o mercado a consegue remunerar. A experiência de Alcoutim demonstra que acelerar a produção de eletricidade que a rede não consegue absorver nem o mercado remunerar não constitui um avanço na transição energética, resultando apenas na criação acelerada de futuras falências empresariais.

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Silke Bischoff - Under Your Skin

Melhor som aqui

O Erotismo Obscuro e a Finitude em "Under Your Skin"
A canção "Under Your Skin" pertence ao projeto musical alemão Silke Bischoff (criado em 1990 por Axel Kretschmann e Felix Flaucher). A faixa é um dos maiores clássicos da cena Darkwave, Wave Gótica e Electro-Goth dos anos 90, combinando batidas eletrónicas atmosféricas, sintetizadores soturnos, guitarras acústicas melancólicas e vocais sussurrados quase hipnóticos.

Em termos de significado da canção, a letra explora uma paixão obsessiva e avassaladora que consome a própria identidade do indivíduo. A metáfora de ter alguém "debaixo da pele" expressa uma devoção que ultrapassa os limites do corpo e da mente, onde o amor se funde com a dor e com uma necessidade visceral de conexão eterna. O videoclipe e a estética do grupo refletem essa mesma atmosfera melancólica e voyeurista, marcada por uma iluminação dramática e minimalista típica do movimento gótico da época. A própria origem do nome da banda remete a um acontecimento real e trágico - o sequestro de Gladbeck em 1988, na Alemanha, no qual a jovem Silke Bischoff perdeu a vida -, o que encharca toda a obra visual e concetual do projeto com temas sobre o trauma, a vulnerabilidade da vida e a perda da inocência.

As influências literárias e filosóficas do grupo ancoram-se fortemente no Romantismo Obscuro e Decadentismo do século XIX, evocando autores como Edgar Allan Poe, Lord Byron e Charles Baudelaire, nos quais o amor é retratado de forma trágica e indissociável da morte (Eros e Thanatos). Há também ressonâncias da filosofia existencialista, onde a obsessão romântica surge como uma tentativa desesperada de conferir sentido à existência perante a solidão e o absurdo do mundo. Além disso, a obra insere-se no contexto cultural da Neue Deutsche Todeskunst corrente que explorava a morbidez, a finitude e a fragilidade humana através da poesia e da música eletrónica soturna.

Secas e cheias estão a atrair pouca atenção mediática global, sugere estudo. E isso pode ser um risco


As secas e as cheias são fenómenos que estão a tornar-se cada vez mais frequentes, intensos e duradouros por causa das alterações climáticas. Contudo, ao contrário dos incêndios que fazem manchetes internacionais, não parecem ser capazes de captar a atenção do media dos países onde não aconteceram.

Dois investigadores, afiliados às universidades de Bonn, Warwick e Imperial College London, apontam que três fatores fazem com que seja maior a probabilidade de a imprensa de um país noticiar um desastre natural noutro: imagens impressionantes, um alto número de vítimas mortais e laços pessoais fortes.

Num artigo publicado na revista ‘Nature Human Behaviour’, Thiemo Fetzer e Prashant Garg dizem que as secas e as cheias não recebem a atenção mediática internacional de incêndios florestais, terramotos, deslizamentos de terras ou erupções vulcânicas.

O trabalho consistiu na análise de dados do Europe Media Monitor, uma base de dados da Comissão Europeia que produz registos diários de notícias publicadas em cerca de 20 mil órgãos de comunicação de 190 países de todo o mundo.

“Perguntámo-nos quais são as catástrofes naturais que suscitam cobertura mediática transfronteiriça”, recorda Fetzer. Por isso, os investigadores focaram-se em todos os desastres cobertos pela imprensa mundial desde 2016, num total de mais de 2.600.

Além nas imagens dramáticas e da quantidade de mortes, a equipa descobriu o que descreve como o fator das “ligações sociais com o país afetado”, como um dos principais fatores que torna mais ou menos provável a cobertura mediática de desastres naturais num país pela imprensa de outro.

“Surpreendentemente, não tem nada a ver proximidade geográfica ou semelhanças linguísticas”, explica, mas sobretudo com “fortes laços pessoais”.

Os investigadores dizem que a proximidade genética entre duas populações contribui para esses laços, apontando que quanto maior for o material genético partilhado, em média, pelas pessoas de dois países diferentes, maior será a probabilidade de a imprensa num dos países cobrir desastres naturais no outro.

“Acreditamos que, em vez de ser a causa real deste resultado, a semelhança genética serve como um indício de laços pessoas estreitos que se desenvolveram, por exemplo, por razões históricas”, refere Fetzer.

Além disso, a dupla de cientistas revela ainda que o número de amizades no Facebook que existem entre os dois países, relativamente ao total das suas respetivas populações, também é fator de influência.

“Laços pessoas asseguram mais interesse e também mais empatia”, salienta o coautor do estudo.

Por todos esses fatores, há consequências do aquecimento global que têm mais dificuldade em chegar às manchetes internacionais. A secas, apontam os investigadores, são geralmente apenas cobertas pela imprensa no país atingido, e algo semelhante acontece com as cheias.

O risco oculto: 
  1. Uma ameaça subestimada. As pessoas continuam a subestimar a verdadeira velocidade e o perigo das alterações climáticas, porque os riscos hídricos mais comuns permanecem fora do campo de visão. 
  2. Resposta tardia: a falta de sensibilização impede as comunidades e os governos de tomarem medidas atempadas para proteger os abastecimentos de alimentos e água. 
  3. Cooperação enfraquecida: sem uma atenção global constante, é menos provável que os países financiem ou apoiem planos de adaptação às alterações climáticas a longo prazo.
“Isso faz com que seja mais fácil ignorar as consequências do aquecimento global, pelo menos até que batam à nossa porta”, conclui Fetzer.

domingo, 23 de agosto de 2026

NECRØ - Our Exile


O NECRØ é um projeto musical vindo de Portugal que se destaca na cena underground de Lisboa por sua abordagem sonora inovadora e atmosférica. A banda funde o peso e a melancolia do Post-Black Metal com a estética gótica e sintetizadores analógicos do Darkwave e do Avant-Garde Metal. Essa combinação contrasta bases pesadas e vocais soturnos com ritmos hipnóticos e texturas eletrónicas imersivas, criando uma identidade sonora bastante única dentro do metal extremo contemporâneo.

A canção "Our Exile" aborda o exílio sob uma perspectiva essencialmente espiritual e existencial. A letra explora a alienação humana e a desconexão da psique moderna em relação ao sagrado e à natureza, retratando o auto-exílio como uma fuga necessária de uma sociedade em decadência. Nessa jornada, a dor e a solidão funcionam como rituais de passagem para a transformação e a busca por uma consciência superior.

Sua bagagem conceitual bebe do existencialismo e do niilismo filosófico, estabelecendo um diálogo direto com as ideias de Friedrich Nietzsche sobre a superação do indivíduo e a crítica à moral coletiva, além do confronto com o absurdo traduzido por Albert Camus. No campo literário, a faixa carrega influências do Romantismo Obscuro de Lord Byron, do horror existencial de Edgar Allan Poe e H.P. Lovecraft, somadas a referências da própria tragédia grega clássica, onde a figura do banido carrega o peso de uma busca solitária por redenção.

Renaturalização vs. Restauro Ecológico: Qual é afinal a diferença?



Numa altura em que a crise climática e a perda de biodiversidade dominam o debate público, ouvimos falar cada vez mais em "devolver o espaço à natureza". Contudo, nem todas as intervenções ambientais são iguais. Termos como restauro ecológico e renaturalização (rewilding) são frequentemente usados como sinónimos, mas representam filosofias e métodos bastante distintos.

Se quer entender como a ciência e os conservacionistas estão a tentar reanimar o nosso planeta, descubra a diferença fundamental entre estes dois conceitos.

O que é o Restauro Ecológico?
O restauro ecológico é uma intervenção intencional, planeada e minuciosa que visa recuperar um ecossistema que foi degradado, danificado ou destruído.

A palavra-chave aqui é referência histórica. Segundo os padrões definidos pela Society for Ecological Restoration (SER), o objetivo do restauro ecológico é olhar para o passado - para o estado do ecossistema antes do impacto humano significativo - e tentar reconstruí-lo.

Como funciona? É um processo altamente assistido pelo ser humano. Envolve a remoção de espécies invasoras, a reparação química do solo, a limpeza de poluentes e a plantação manual de espécies autóctones específicas.

Exemplo prático: A reflorestação de uma área que ardeu recentemente, onde técnicos e voluntários plantam manualmente milhares de sobreiros autóctones para reconstituir a floresta original que ali existia há um século.

Estudo de Referência: vários trabalhos académicos, como o estudo global publicado na revista científica Nature sobre prioridades globais para o restauro de ecossistemas, demonstram que o restauro ecológico ativo em áreas prioritárias pode evitar até 60% das extinções de espécies e absorver grandes quantidades de carbono.

No restauro ecológico, o ser humano assume o papel de arquiteto e jardineiro da paisagem.

O que é a Renaturalização (Rewilding)?

A renaturalização - amplamente conhecida pelo termo em inglês rewilding - adota uma perspetiva diferente. Em vez de tentar replicar uma fotografia do passado, a renaturalização foca-se em devolver a autonomia à natureza para que esta decida o seu próprio futuro.

A ideia central não é gerir o ecossistema para sempre, mas sim restaurar os processos naturais (como as cadeias alimentares e os ciclos da água) e, em seguida, o ser humano afastar-se.

Como funciona? Geralmente começa com intervenções pontuais de grande impacto — como a remoção de diques e barragens obsoletas para libertar o curso dos rios, ou a reintrodução de grandes herbívoros e predadores. A partir daí, a intervenção humana reduz-se ao mínimo.

Exemplo prático: Retirar os muros de betão das margens de um rio e reintroduzir castores. Os castores criam açudes naturais, alteram o fluxo da água, previnem cheias e criam ecossistemas húmidos onde novas plantas e animais voltam a prosperar sem qualquer ajuda humana.

Estudo de Referência: O relatório científico Rewilding Complex Ecosystems publicado na revista Science destaca como a reintrodução de espécies-chave e a redução da gestão humana aceleram a resiliência ecológica e a recuperação de funções tróficas naturais.

Na renaturalização, o ser humano é apenas o facilitador inicial que abre a porta e deixa a natureza assumir o comando.
CritérioRestauro EcológicoRenaturalização (Rewilding)
Ponto de ReferênciaO passado (estado histórico original).O futuro (processos naturais autónomos).
Papel do HumanoGestor e gestor contínuo.Facilitador inicial; depois retira-se.
Grau de ControloElevado (procura-se um resultado pré-definido).Reduzido (a evolução do ecossistema é aberta).
Ações TípicasPlantação de espécies nativas, controlo de invasoras.Remoção de barreiras nos rios, reintrodução de fauna chave.
existem
Existem Planos Nacionais para estas áreas?

Sim, existindo compromissos governamentais e europeus específicos, embora com abordagens institucionais diferentes:

1. Para o Restauro Ecológico (Existem Planos Oficiais Vinculativos)

O Restauro Ecológico é hoje uma política de Estado obrigatória na União Europeia:
  1. Plano Europeu: O Regulamento (UE) 2024/1991 relativo ao Restauro da Natureza da União Europeia exige metas juridicamente vinculativas: restaurar pelo menos 20% das áreas terrestres e marinhas da UE até 2030.
  2. Plano Nacional em Portugal: Portugal desenvolveu o seu Plano Nacional de Restauro da Natureza (PNRN), coordenado pelo ICNF . Este plano prevê metas concretas até 2050 para a recuperação de ecossistemas degradados, incluindo a plantação contínua de árvores autóctones, recuperação de galerias ripícolas e proteção de solos.
2. Para a Renaturalização / Rewilding (Abordagem Complementar e Iniciativa Privada/ONG)
Não existe um "Plano Nacional de Rewilding" formal emitido pelo Governo com esse nome, mas a prática está integrada em estratégias de conservação e projetos locais:
  1. Enquadramento Estratégico: A Estratégia Nacional de Conservação da Natureza e Biodiversidade (ENCNB 2030) enquadra o aumento da conectividade ecológica e a promoção de processos naturais autónomos.
  2. Iniciativas no Terreno: O grande motor do rewilding em Portugal são ONG e parcerias internacionais. O principal exemplo é a ONG Rewilding Portugal, responsável por gerir projetos no Grande Vale do Côa e Corredor Ecológico do Oeste, em coordenação com iniciativas europeias como o projeto LIFE WolFlux para a conservação do lobo-ibérico.
Em conclusão
Embora o restauro ecológico conte com o respaldo direto de leis europeias e de um Plano Nacional com metas governamentais, a renaturalização surge como um complemento indispensável, liderado no terreno por redes e associações de conservação. Ambas as abordagens são essenciais para devolver o equilíbrio ambiental a Portugal e à Europa.